Conceição Evaristo 

 

 

 

Translations by Tamara Mitchell

 

Filhos na rua

O banzo renasce em mim.
Do negror de meus oceanos
a dor submerge revisitada
esfolando-me a pele
que se alevanta em sóis
e luas marcantes de um
tempo que aqui está.

O banzo renasce em mim
e a mulher da aldeia
pede e clama na chama negra
que lhe queima entre as pernas
o desejo de retomar
de recolher para
o seu útero-terra
as sementes
que o vento espalhou
pelas ruas...

 

 

 

 

 

 

Recordar é preciso

 

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos.
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento de vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga.
Mas os fundos océanos não me amedrontam nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

 

 

 

 

 

Todas as manhãs

 

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

 

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

 

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós

 

Children in the Street


The banzo stirs in me.

From the black ink of my oceans

the pain, revisited, submerges

flaying my skin

that surges in suns

and lofty moons of a

time that is now.

 

The banzo stirs in me

and the village woman

begs and clamors in a black flame

that burns her inner thighs

the desire to reclaim

to scavenge for

her womb-earth

the seeds

that the wind has scattered

through the streets…

 

 

 

 

 

Remembering is a Necessity

 

The sea wanders rolling beneath my thoughts.

Turbulent memory sets sail:

Remembering is a necessity.

On the waters of recollection the to and fro

of my weeping eyes crashes over my life,

Curing my face and my taste. I am an eternal shipwreck.

But the ocean depths do not frighten me or paralyze me.

A profound passion is the buoy that rises before me.

I know mystery lies beyond the waters.

 

 

 

 

 

Every morning

 

Every morning I lie with dreams

and against my breast

rock a shooting pain to sleep.

 

Every morning my fists

are bleeding and numb

this is my labor

digging, digging mounds of earth,

till I reach the place where men bury

hope stolen from other men.

 

Every morning alongside the coming day

I hear my banzo-voice,

anchor of the vessels of our memory.

And I believe, yes, I believe

that our dreams protected

by the shrouds of night

will open one by one

on the clothesline of a new age

spilling our tears

nourishing all the earth

where our black seed resists

reawakening hope within us.

revistahiedra@gmail.com
Bloomington, IN

USA

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